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Entrevista com Herieta Massango: Desafios e avanços da presença feminina nas universidades moçambicanas

Foto do escritor: Ashinaga BrasilAshinaga Brasil

O caminho da ciência e da pesquisa acadêmica é, muitas vezes, um desafio solitário. No entanto, algumas trajetórias se tornam faróis para aqueles que seguem adiante, rompendo barreiras e moldando um futuro mais inclusivo. Herieta Massango é uma dessas vozes. Docente e investigadora na Universidade Pedagógica de Maputo, com experiência acadêmica em Moçambique, Japão, Suécia e África do Sul, ela tem se destacado não apenas pela excelência acadêmica, mas também pelo compromisso com o avanço das mulheres na ciência. Nesta conversa, mergulhamos em sua trajetória, nos desafios enfrentados pelas mulheres na academia e na visão de um futuro onde a equidade é uma meta estabelecida.


Poderia se apresentar e nos contar um pouco sobre sua trajetória acadêmica e profissional?

Herieta Massango, Moçambicana, nascida em Maputo a 29 de novembro de 1981. Venho de uma família de seis irmãos,  dos quais sou a quarta filha. Meu pai foi técnico de recursos humanos e minha mãe, alfabetizadora. Sempre fui uma pessoa tímida, contudo, desafiadora, curiosa e teimosa – o campo das Ciências foi sempre minha paixão. No ensino médio, segui a área de ciências com desenho, sonhando em ser arquiteta ou engenheira civil. Contudo, minha trajetória tomou outro rumo quando, em 2002, concluí o ensino médio e ingressei na Universidade Pedagógica de Maputo (UP-Maputo), como técnica de laboratório de Física. Este emprego foi uma oportunidade de unir minha paixão pela Física ao objetivo de financiar meus estudos superiores.

Herieta Massango participando de eventos acadêmicos na Universidade de Hiroshima, Japão.
Herieta Massango participando de eventos acadêmicos na Universidade de Hiroshima, Japão.

Em 2004, ingressei no curso de Licenciatura em Ensino de Física na UP-Maputo e graduei com distinção em 2009. Recebi o prémia de estudante com melhor classificação para o curso de Física. A minha dedicação e excelência acadêmica, levaram-me a mudar de carreira para assistente universitária, em 2011. Nesse mesmo ano, concorri a uma bolsa de estudos do governo japonês para cursar o Mestrado e Doutorado na Universidade de Hiroshima, no Japão, onde me especializei em Física de Materiais. Regressei a Moçambique em 2018, com o título de Professora Doutora. Em 2021 fiz o pós-doutoramento em Ensino Superior e Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Eduardo Mondlane em parceria com o Instituto Real de Tecnologia (KTH), na Suécia, e a Universidade de Western Cape (UWC), na Cidade do Cabo, África do Sul.


Como chegou até onde está hoje? Quais desafios enfrentou nesses períodos?

Quando ingressei na UP-Maputo, como técnica de laboratório, o cenário no curso de Física era amplamente dominado por homens. Entre, aproximadamente, oito docentes do departamento, havia apenas uma mulher, a engenheira Helena Magumane. Sua presença foi fundamental para minha trajetória, pois, com sua orientação, formamos uma pequena, mas significativa, equipe feminina no setor. Magumane ("Mamusca", como carinhosamente a chamo) foi uma mentora excepcional, compartilhando comigo grande parte do conhecimento que hoje aplico no trabalho com laboratórios. Além disso, recebi um apoio incondicional de todo o Departamento de Física, que contribuiu para minha integração e aprendizado.

Herieta e colegas de academia realizando pesquisas na área de Física.
Herieta e colegas de academia realizando pesquisas na área de Física.

Após o regresso a Moçambique, continuei a lecionar na UP-Maputo, dedicando-me à formação de novos talentos e à pesquisa. Assumi e assumo cargos de liderança, como chefe de departamento, diretora-adjunta na pós-graduação e coordenadora do curso de mestrado em Energia e Meio Ambiente. Durante minha formação e carreira, enfrentei diversos desafios. Primeiramente, porque a Física é uma área predominantemente masculina, e, em segundo lugar, porque eu não possuía uma formação específica na área de laboratórios. No entanto, tive a felicidade de contar com o apoio necessário para superar essas barreiras. Essas experiências não apenas moldaram minha trajetória profissional, mas também reforçaram minha crença na importância do apoio mútuo e na valorização da diversidade em ambientes acadêmicos e profissionais.


Quais são os principais desafios enfrentados pelas mulheres na área acadêmica em Moçambique?

Pude constatar, durante a minha formação, tanto dentro bem como fora do país, que as mulheres estavam sempre sub-representadas em especial nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (em inglês, Science, Technology, Engineering and Mathematics - STEM). A discriminação e a desigualdade de gênero, a visão tradicional de que a mulher é "fraca" ou "incapaz" de persistir em áreas desafiadoras como as ciências reflete estereótipos prejudiciais que, infelizmente, ainda persistem na sociedade Moçambicana. A pressão para equilibrar responsabilidades acadêmicas e familiares, com a expectativa de que as mulheres desempenhem o papel de cuidadoras do lar, é outro fator que dificulta a ascensão profissional e acadêmica das mulheres.

Existe, ainda, uma escassez de mulheres em posições de liderança e de docentes tituladas, o que reflete um sistema que ainda não está suficientemente inclusivo e que precisa de mudanças significativas para proporcionar um ambiente mais igualitário. A falta de políticas eficazes que promovam a equidade e o apoio contínuo às mulheres na academia se reflecte na baixa representação das professoras doutoras, em muitas instituições de ensino em Moçambique


E como você acredita que esses obstáculos podem ser superados?

Para que se supere os obstáculos, algumas ações podem ser levadas a cabo, como a criação de programas de mentoria e de apoio financeiro, especialmente voltados para mulheres nas áreas STEM, pode ser uma estratégia eficaz para aumentar a participação feminina e incentivar a permanência dessas mulheres no sistema acadêmico. A implementação plena das políticas de gênero, aliada a um forte combate ao assédio sexual nas instituições de ensino, é fundamental para criar um ambiente mais seguro e acolhedor para as mulheres. É importante que estas ações não se limitem ao discurso, mas que sejam acompanhadas de investimentos reais e mudanças estruturais nas universidades e escolas.


Como você enxerga a evolução da participação feminina nas universidades e centros de pesquisa de Moçambique ao longo dos anos? Houve mudanças significativas no apoio a essas mulheres?

A trajetória das mulheres em universidades e centros de pesquisa de Moçambique reflete uma transformação gradual e positiva. O aumento no número de instituições de ensino superior, incluindo a expansão para zonas rurais, tem criado mais oportunidades para as mulheres, resultando em um crescimento gradual na matrícula feminina nas universidades do país. Inicialmente, havia uma maior representatividade feminina em áreas como ciências sociais, medicina e educação. Recentemente, tem-se observado um aumento no interesse por cursos em áreas STEM. Apesar desse avanço, a representação feminina nessas áreas ainda é menor em comparação aos homens.

Herieta, à direita, em companhia com os demais membros-fundadores da PMCET.
Herieta, à direita, em companhia com os demais membros-fundadores da PMCET.

O governo, em parceria com algumas universidades e organizações internacionais, têm implementado políticas e programas de incentivo, como bolsas de estudo, financiamento em projectos de pesquisa e extensão específicos para mulheres. Essas ações têm como objetivo atrair cada vez mais a participação feminina nas universidades e centros de pesquisa de Moçambique.

Um exemplo notável de iniciativa nesse campo é a Iniciativa Pela Mulher na Ciência e Tecnologia (PMCET), do qual sou membro-fundador, junto com colegas docentes universitárias de diferentes áreas STEM. Essa iniciativa social e acadêmica tem como objetivo desenvolver instrumentos e condições que incentivem o ingresso e a permanência de estudantes do gênero feminino nas áreas de Ciência, Engenharia e Tecnologia. O projeto busca ajudá-las a se tornarem mais seguras na vida acadêmica, profissional e social.


Que exemplos de mulheres moçambicanas na academia ou pesquisa podem servir de inspiração para as gerações mais jovens? Quais são as suas próprias fontes de motivação e inspiração nesse campo?

Moçambique conta com várias mulheres notáveis na academia e na pesquisa, cujas trajetórias inspiram as gerações mais jovens. Essas mulheres não apenas ocupam posições de destaque no país, mas também servem como exemplos de perseverança, dedicação e liderança no meio acadêmico. Alguns exemplos incluem Emília Afonso Nhalevilo, Reitora da Universidade Púnguè, em Manica; Sarifa Fagilde, primeira mulher moçambicana catedrática em Matemática e Vice-reitora para a área acadêmica da Universidade Rovuma, em Nampula; Brígida Singo, Vice-reitora da Universidade Licungo, em Quelimane; Isabel Casimiro, acadêmica e ativista, uma das fundadoras do campo de estudos de gênero em Moçambique; e Herieta Massango, docente, pesquisadora e activista, com engajamento em questões de sustentabilidade e gênero.

Quais são as principais conquistas ou avanços que você acredita que as mulheres na academia em Moçambique têm alcançado nos últimos anos, e como essas conquistas impactam a sociedade moçambicana de forma geral?

Em Moçambique, a presença de mulheres em posições de destaque no ensino superior tem crescido significativamente nos últimos anos, refletindo importantes avanços rumo à igualdade de gênero. Essa transformação é visível em diversos níveis acadêmicos e possui impactos amplos e inspiradores. A presença feminina em papéis de liderança serve de exemplo para as novas gerações, reforçando a ideia de que igualdade de oportunidades é possível e necessária, contribuindo para a quebra de estereótipos de gênero e motiva meninas e jovens a aspiram a carreiras antes vistas como inacessíveis. Entre as ações que vêm sendo realizadas, as iniciativas incluem programas de mentoria que conectam mulheres líderes a jovens acadêmicas, fortalecendo suas trajetórias profissionais.  Fortalecem também a colaboração entre mulheres, facilitando o compartilhamento de conhecimento e promovendo mudanças estruturais nas instituições acadêmicas.


Qual conselho você daria para jovens meninas que desejam ingressar na carreira acadêmica não só em Moçambique, mas em toda a África Subsaariana?

Corram atrás dos vossos sonhos e não deixem que nada, nem ninguém, as faça desistir. Na academia, os obstáculos podem ser muitos, mas todos são superáveis. Não se deixem intimidar com a presença dominante de homens em determinadas áreas de interesse; encarem isso como um privilégio de ser única no meio de muitos e como uma oportunidade de provar que nós também somos capazes. Sejam sempre inspiração e motivo de orgulho para outras jovens meninas. Busquem sempre o equilíbrio entre a vida acadêmica e familiar – há espaço para tudo. Se eu  consigo, você também consegue. Nada é impossível.


Histórias como a de Herieta Massango não são apenas inspiradoras, mas um lembrete de que a mudança acontece quando pessoas se apoiam e criam oportunidades umas para as outras. A liderança de mulheres como ela abre portas para as futuras gerações e, ao fortalecer redes de apoio e promover o empoderamento feminino, podemos contribuir para a construção de um futuro mais inclusivo e inovador na ciência, especialmente na África Subsaariana.

 
 
 

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